sábado, 8 de janeiro de 2011

Pacientes

Em uma consulta de emergência - que dura em média 10 min a forma com que o paciente entra no consultório é esclarecedora.

Dentre inúmeras, tem o paciente que "sem querer" se senta ou ensaia sentar na cadeira do médico e tem aquele que vai logo deitando na maca.

Com suas exceções o primeiro geralmente veio "pegar emprestado" seu carimbo para preencher uma receita, uma solicitação de exame ou um laudo. Já o segundo mal vai saber descrever seus sintomas, pois acredita que o perito é você.

Exemplifico, "Então Seu Fulano, o que está lhe acontecendo?" e a resposta quase que ensaiada, "pois é isto que eu vim descobrir". Tento simplificar "Muito bem, então o que o Sr. vem sentindo?" para obter "Eu uso remédio para ______ e não venho me sentindo bem, a Sra. sabe...". Não, não sei...

Explicações freudianas a parte, este é um reflexo de como é incomum a interação entre as pessoas no dia a dia. Como é difícil em geral se soltar de papéis e funções e se apresentar. Um desperdício de vida e de espaço...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

As Canalhices de Carpinejar ou Do porquê não xinguei ele

Não é novidade nem segredo que poder sentir-se canalha em uma relação é para o Fabrício uma conquista. Ele descreve os mecanismos de ganho e defende sua postura com argumentos claros e diretos. Diz que perceber a atenção da mulher combinada com sua incapacidade de ir embora é para ele um êxtase.
Em "Matando Carpinejar" ficamos sabendo de detalhes das situações que ele cria repetidamente com a finalidade de se colocar nesta posição. E mais, fica-se conhecendo uma de suas táticas, que é a de ser pêgo, ser visto praticando o ato - que sem a atenção recebida perderia o sentido.
De forma semelhante, uma criança fala de forma pausada, clara e em sutis decibéis acima do usual "mãe, olha o fogo!". "Mãe, olha o fogo" é um livro. Com uma frase a criança resume que quer a atenção da mãe; que esta atenção precisa ser imediata; que se não receber esta atenção imediata ela talvez seja capaz de colocar a mão no fogo; que ela não quer colocar a mão no fogo (pois se quisesse já teria colocado ao invés de criar a cena) e que se receber a atenção imediata que está solicitando irá se sentir amada e se reasegurará de que o amor existente na relação entre os dois é bom e protetor. Então o que parecia um simples apontamento geralmente inconveniente e levemente irritante se mostra rico de estratégia e de propósito.
Pois é exatamente assim que eu entendo as canalhices do autor. Se ele quisesse simplesmente trair ou apenas envaidecer-se ao flertar com umazinha qualquer não daria tanto pano para manga. Como ele mesmo diz isso seria mau caratismo. Mas não, ele quer ser pêgo. Sentir na represália ou ver na fúria dos olhos da amada a reafirmação de um amor bom e protetor. Ele demanda que ela esteja vigil; como garantia de que sobra nela amor suficiente para que valha a pena a vigilância. E a Cinthya não só supre esta demanda, como ainda deixa claro que tem energia amorosa extra, muito além da requisitada, quando faz um inventário detalhado mostrando que estava atenta a ele antes mesmo da cena criada, que notou o exato momento em que o amado iniciou o jogo e que sabe em detalhes tudo o que estava acontecendo. Dedica tempo e talento para ofertar seu carinho de forma concreta. "Ele quer ver fúria? Pois então eu mato ele com requintes de crueldade!".
É uma dança de sincronia apurada que só se vê em casais especiais. Questionar a existência e pôr a prova o amor existente pode parecer insegurança, mas pode também ser visto como um elogio. "Querida, preciso que de tempos em tempos você me reassegure de que sou amado, pois acho você tão fantástica que fico na dúvida se você me ama mesmo" e não é por se achar pouca coisa, como demonstra que a oferta de interessadas continua lá.
Então quando leio uma das crônicas do "Matando" ouço o Fabrício dizendo para a minha amiga a mulher extraordinária que ela é e vejo a Cinthya encontrando cada vez mais dentro de si as habilidades necessárias para estar nesta relação. Em resumo a cada assassinato os vejo mais compatíveis e exercitando/vivendo a paixão que sentem um pelo outro. Por isso não xingo; por isso aplaudo; por isso me alegra ver meus amigos felizes, mesmo que todas as outras pessoas e mesmo a própria Cinthya talvez vejam um problema. Está tudo bem. Vem cá querido, me dá a mão, não toca aí não que tu pode te machucar.
Amo vocês!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Adolescentes

Aninha,

A adolescência é uma fase em que acontece muita coisa e em que a gente se sente um pouco sozinha. Tem algumas coisas que eu acho que ajuda saber ou ao menos parar para pensar a respeito.

Existem pessoas na tua vida que acompanharam a tua infância. Entre elas tem aquelas que tu ama e que tu sabe que te amam. Pára agora para pensar quem são elas. Anota se tu achar uma boa idéia. Feito? Tu já sabe quem são? Pois então pronto; tu precisa - por um tempo - olhar estas pessoas com outros olhos. Porque elas vão te enxergar, tratar e pensar em ti como criança por algum tempo. E TUDO o que tu fizer que seja diferente de agir ou pensar como uma criança vai soar estranho para elas. Cada vez que estas pessoas te olharem com estranheza tu vai te sentir fazendo alguma coisa errada e vai te sentir insegura. E isto não é nada bom, né?! Pois então cada vez que tu te der conta de que tu está te sentindo assim lembra que ela só estão te estranhando, mais nada, e deixa a insegurança de lado. A tua personalidade e a tua integridade já estão formadas e são muito boas. Tu fostes uma criança amada, carinhosa e bem intensionada. Só com muito azar e burrice tu poderia estragar isso. As chances são de que tu vá te tornar uma adulta legal. Lembra disso de vez enquando.

Várias oportunidades vão surgir. Tu vais ter vontades e curiosidades de viver e de experienciar várias coisas. Te joga! Vive tudo com toda a energia que a curiosidade vai te dar. NUNCA tenha medo de parecer ridícula. Fica com medo de não viver a tua vida com intensidade. Isso sim é um problema.

Te cuida. Cuida dos teus sentimentos para não entrar em situações que tu pressente que vai te machucar. A gente geralmente sabe quando está se metendo em uma roubada. Confia nisso e segue teus instintos para te proteger.

Vai te dar vontade de fazer coisas erradas. Tudo bem. Mas lembra que algumas burradas podem ser definitivas. Engravidar é definitivo - mesmo que tu faça um aborto - é uma coisa que te transforma. Te permite escolher quando tu quer fazer isso.

Perder a virgindade é definitivo e tu vai ter grandes expectativas do cara que for o teu primeiro - então te assegura bem ANTES de que ele não vai te decepcionar feio logo depois.

Se viciar em álcool ou drogas é definitivo. Então se tu decidir experimentar ou usar essas coisas, antes pára para pensar se tu não está correndo o risco de fazer disso um hábito frequente.

Escolher uma carreira é quase definitivo. Então não tenha pressa. As coisas que tu gosta vão te levar para o lugar certo. Pode confiar nas coisas que tu gosta. Sempre que alguma coisa te faz feliz, cultiva essa coisa, faz bastante e só pára quando deixar de ser interessante. Por que tu parou de desenhar?

Os teus amigos vão te conhecer melhor do que as pessoas que tu conhece a mais tempo. Mesmo os amigos mais antigos vão entrar na categoria dos que te conhecem pouco se eles não andarem na mesma direção e no mesmo ritmo que tu. Cada pessoa que tu escolher para conviver e conversar mais representa muito o que te agrada - e assim tu podes aprender mais sobre ti mesmo.

Ninguém vai ser a companhia perfeita. Porque todo mundo vai ser diferente de ti em alguma coisa, e a gente gosta de conviver com quem é parecido com a gente. Na verdade a gente quer que todo mundo pense e sinta tudo do exato mesmo jeito que a gente. Parece loucura, né?! Mas presta atenção - chega a ser engraçado!

Não fica muito braba com as pessoas "mais antigas" por não te entender por completo; é difícil acompanhar alguém que está mudando tanto. Eventualmente elas te alcançam. Essas mesmas pessoas vão estar sempre te perguntando coisas do tipo "do que tu gosta?", "por que tu não gosta disso?", "o que tu vai ser quando crescer?". Não te sente na obrigação de responder nada.

Cuidado para não fazer coisas só porque todo mundo está fazendo, ou porque alguém quer que tu faça - é a tua vida! Cuidado também para não deixar de fazer MUITAS coisas por medo, vergonha ou timidez. Timidez geralmente é o oposto de viver, de curtir e de te sentir bem com quem tu és a cada momento. E tu vai mudar o tempo todo!

Boa sorte! Te cuida e se de vontade de bater papo, me liga!

Te adoro,

Mari