Ocorreu um erro neste gadget

sábado, 14 de abril de 2007

Vc é o que ngm vê

"...Você é os brinquedos que brincou, é os nervos a flor da pele, os segredos que guardou, você é sua praia preferida, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai, você é o que você lembra... Você é a saudade que sente da sua mãe, o sonho desfeito quase no altar, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora... Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, você é o pêlo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta, você é a palavras dita para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda... Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar, você é o desprezo pelo o que os outros mentem, o desapontamento com o governo, o ódio que tudo isso dá, você é aquele que rema, que cansado não desiste, você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta, você é o que você queima... Você é aquilo que reinvidica, o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta, você é os direitos que tem, os deveres que se obriga, você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca, você é o que você pleiteia... Você não é só o que come e o que veste. Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê. Você é o que ninguém vê..."

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Desde o primeiro momento

"Estava ali desde o primeiro momento,
na adrenalina
que circulava pelas veias de seus pais,
quando fizeram amor para concebê-lo,
e depois no fluido
que sua mãe bombeava ao seu pequeno coração,
quando ainda era só um parasita.

Cheguei a você antes que pudesse falar,
antes que pudesse entender algo
do que os outros lhe falavam.
Eu já estava, quando com dificuldades
você tentava os primeiros passos
ante o olhar gozador e divertido de todos.
Quando estava desprotegido e exposto,
quando era vulnerável e necessitado.

Apareci na sua vida
da mão do pensamento mágico.
Me acompanhavam...
as superstições e os conjuros
os feitiços e os amuletos...
as boas formas, os costumes e a tradição...
seus professores, irmãos e amigos...

Antes que você soubesse da minha existência,
dividi sua alma num mundo de luz e de escuridão.
Num mundo do que está bem e do outro que não está.

Trouxe seus sentimentos de vergonha,
mostrei tudo o que em você é defeituoso,
feio,
estúpido,
desagradável.
Pendurei em você a etiqueta de “diferente”.
quando disse pela primeira vez ao ouvido
que algo não andava tão bem com você.

Existo desde antes da consciência,
desde antes da culpa,
desde antes da mortalidade,
desde os princípios,
desde que Adão envergonhou-se de seu corpo
ao perceber que estava nu...
e o cobriu!

Sou o convidado não querido,
o visitante não desejado,
e, no entanto,
sou o primeiro a chegar e o último a sair.
Com o tempo me tornei poderoso,
escutando os conselhos de seus pais sobre como
triunfar na vida.

Observando os ensinamentos de sua religião,
que lhe dizem o que fazer e o que não
para poder ser aceito por Deus.
sofrendo as gozações cruéis
dos companheiros de colégio,
quando riam das suas dificuldades.
Suportando as humilhações dos superiores.
Contemplando sua desalinhada imagem no espelho
depois comparada com a dos “bem-sucedidos”
que mostram na televisão.

E agora, por fim,
poderoso como eu sou
e pelo simples fato
de ser mulher,
de ser negro,
de ser judeu,
de ser homossexual,
de ser oriental,
de ser incapacitado,
de ser alto, baixo ou gordo...
posso transformá-lo...
num cesto de lixo,
em escória,
num bode espiatório,
no responsável universal,
num maldito,
bastardo,
descartável.

Gerações e gerações de homens e mulheres
me apóiam.
Você não pode libertar-se de mim.

A pena que causo é tão insustentável
que, para me suportar,
deverá me transferir aos seus filhos,
para que eles transfiram aos seus,
por século e séculos.

Para ajudar você e a sua descendência,
hei de fantasiar-me de perfeccionismo,
de altos ideais,
de autocrítica,
de patriotismo,
de moralidade,
de bons costumes,
de autocontrole.

A dor que causo é tão intensa
que desejará negar-me
e, para isso,
tentará me esconder sob seus personagens,
sob as drogas,
sob a luta pelo dinheiro,
sob a neurose,
sob a sexualidade indiscrimindada.
Mas não importa o que você faça,
não importa onde você vá,
eu estarei ali
sempre ali.
Porque viajo com você
dia e noite
sem descanso
sem limites.

Eu sou a causa principal da dependência,
da possessividade,
do esforço,
da imortalidade,
do medo,
da violência,
do crime,
da loucura.

Eu lhe ensinei o medo de ser rejeitado,
e condicionei sua existência a esse medo.
Você depende de mim para continuar sendo
essa pessoa buscada, desejada,
aplaudida, gentil, agradável
que hoje mostra aos outros.
Você depende de mim
porque sou o baú onde você esconde
aquelas coisa mais desagradáveis,
mais ridículas,
menos desejáveis de você mesmo.

Graças a mim,
aprendeu a conformar-se
com o que a vida lhe dá,
porque depois de tudo,
qualquer coisa que vivencie será sempre mais
do que acredita merecer.

Tudo começou naquele dia cinzento
Quando você parou de dizer com orgulho:
SOU EU!
e entre envergonhado e temeroso,
inclinou a cabeça
mudando seus dizeres e atitudes
por um pensamento:
EU DEVERIA SER..."