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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Professor Clóvis de Barros FIlho - Não sai daí!

É muito comum que tentem avaliar a nossa vida por salários, bonus, metas, resultados, fatias de mercado. São números que oferecemos para que possam avaliar se vivemos bem ou não.
Outro dia mesmo alguém me perguntou "quanto ganha um professor da USP?' Eu respondi com sinceridade e acanhamento e imediatamente a pessoa concluiu "com esse salário a vida não pode ser boa.".
Mas quando você chega em casa e se pergunta sobre como foi o dia, parece evidente que o dia terá valido a pena se você conseguiu rir; conseguiu ao menos sorrir. A vida valeu a pena pelos abraços, pelos apertos de mão, pelos gestos de carinho e por todas as boas sensações que você possa ter tido. Nada disso tem a ver com números; nada disso se presta a quantificação.
As boas sensações têm sido reúnidas ao longo da história do pensamento por detrás da palavra "amor". Assim, parece verdadeiro que quando a vida é vivida com amor ela tem muito mais graça e cor.
Acordar segunda-feira de manhã às oito é bem possível e até apetitoso se naquele dia formos encontrar algum amor. Sem amor, no entanto, a vida é arrastada, cinza, em preto-e-branco, e é preciso esperar a semana inteira para que um novo e entediante final de semana separe a desgraça da semana anterior da desgraça da próxima semana.
O amor parece mesmo a referência. E amor é sentimento; infelizmente escapa ao nosso controle. O amor nada tem a ver com vontade, decisão, escolha. O amor não é uma questão moral. Sim, porque moral é a inteligência a serviço da vida. Existe moral toda vez que escolhemos o caminho, toda vez que decidimos uma alternativa, toda vez que jogamos no lixo possibilidades de vida que decidimos não viver.
Moral é escolha; é decisão racional.
O amor não. O amor é sentimento - a gente assiste em nós - fenômeno do nosso corpo que se presta à nossa contemplação. Surge sem que tenhamos decido e vai embora, para nosso lamento, sem que nada possamos fazer para impedir.
Amor e moral não tem nada a ver.
No entanto, é fácil perceber que na hora de usarmos a inteligência para escolher a vida o amor é a grande referência. Já que não ama, faça como se amasse.
A moral é uma imitação do comportamento de quem ama. A moral é uma tentativa desesperada de agir como se amássemos - sem amor.
Exemplos, muitos. Eu tenho uma filha que semana passada completou 11 anos e é o meu maior amor. Toda vez que eu viajo eu levo para minha filha um presente. Como eu viajo quase todo dia, todo dia eu levo um presente. Isso desperta ciúme. "Poxa, como você é generoso com a Natália." E eu sou sempre obrigado a explicar - não há aqui generosidade nenhuma; o que há é amor.
Quem ama dá e dá por amor. E generosidade? Generosidade é a imitação do comportamento de quem ama. O generoso é aquele que dá sem amar. Somos todos generosos algum dia. Mas quem ama dá sem precisar pensar; sem precisar decidir, sem precisar escolher. Assim é o comportamento amoroso. Nem passa pela cabeça fazer diferente. A generosidade não. A generosidade é escolhida, decidida, pensada. Assim também é a fidelidade.
Você está apaixonado "nos 4 pneus"; quando acorda de manhã às 3 da manhã para fazer xixi enxerga a figura do ser amado no vaso sanitário - paixão arrebatadora. Nem passa pela sua cabeça intimidades físicas com outro senão aquele objeto da sua paixão. Aquela exclusividade é a consequência óbvia daquele sentimento arrebatador. Se você fosse tentar intimidades com outras pessoas passaria vergonha. Só pensaria nela; não daria certo. E você é exclusivo por amor.
Mas o amor acaba. E às vezes o amor acaba depois de muito tempo de convivência. E você por compaixão, para não produzir a tristeza de quem está a tanto tempo ao seu lado, você continua exclusivo. Às vezes é falta de opção. Você continua exclusivo sem amor. Exclusividade decidida, pensada, escolhida - a isso chamamos fidelidade; imitação do comportamento de quem é exclusivo porque ama e só pensa nele ou nela.
Você nesse momento deve pensar, "professor, poxa vida, se o amor é a grande referência para a moral; se o amor confere colorido à vida que sentimento é esse?  O que eu tenho que sentir para poder ter certeza de que estou amando?"
Essa resposta é oferecida de muita maneiras por pessoas muito importantes. Eu citarei aqui três concepções diferentes de amor que são oferecidas por três grandes mestres espirituais.
O primeiro amor, o mais antigo dos três, é proposto por platão - daí a expressão "amor platônico". Quatro séculos antes de cristo Platão define o amor. Platão é pai fundador da nossa maneira de pensar; é pai fundador da nossa filosofia. O segundo amor é de Aristóteles. Aluno de Platão, praticamente contemporâneo, também oferece a sua definição de amor Aristóteles - pai fundador da ciência, pai fundador da nossa maneira de investigar. O terceiro amor é um pouco mais tardio; é o de Cristo. Cristo, pai fundador da nossa civilização e deus para muitos de nós.
Três amores: três sentimentos diferentes para a mesma palavra. Três sentimentos que fazem parte da nossa vida. E que eu apresento sem mais delongas.
Comecemos pelo amor de Platão, o mais antigo. Platão nunca usou a palavra amor. Normal, não falava português. Platão falavra grego. E, em grego, o seu amor ele chamou de Eros. Eros, palavra que te é familiar. Eros de erotismo, erotização, "Eros Motel" - faz parte da tua trajetória. E quem vai definir este amor para Platão é Sócrates, personagem principal do platonismo. Platão apresenta diálogos e é sempre Sócrates a versão que Platão considera correta. E Sócrates vai definir o amor em um diálogo, o mais conhecido dos diálogos - o banquete. Você pode comprar até em banca de jornal. E qual é a definição? Acompanhe comigo a genialidade irritantemente simples de Platão: Amar é desejar. Eros é desejo. Você ama aquilo que deseja. Você ama aquele que deseja. Você ama enquanto e na intensidade em que deseja. E a má notícia é que se o desejo acabou é porque o amor acabou também. Amor e desejo são a mesma coisa.
Nesse momento você agradece Platão pela definição, eros é desejo. Mas, se eros é desejo, desejo é o que? E Platão já sabendo dessa tua dúvida, definirá desejo na linha seguinte. Desejo é a falta. Desejo é abusca do que faz falta. Desejo é a energia para buscar o que não temos; energia para buscar o que não somos; energia para ir atrás do que não conseguimos fazer ainda. E agora você tem a definição completa. Você ama aquilo que deseja; e deseja aquilo que não tem.
E quando tem? Aí não deseja mais. E como amor é desejo, também não ama mais. Mas essa definição é um horror; é filosofia: amor é desejo e desejo é falta. Então, de duas uma, ou você deseja e ama o que não tem ou tem, mas aí o amor é pela cunhada; é pelo o que faz falta. O amor é pelo que ainda não é seu.
Exemplos muitos. Esta minha filha quando completou sete anos amava e desejava um brinquedinho eletrônico chamado DS. E amava e desejava por que? Porque não tinha. De tanto merecer, Natália no natal ganhou o DS. Neste momento a falta se faz presença. E, como o desejo é pelo o que falta, o desejo pelo DS desaparece. E como o amor é desejo, o amor pelo DS também desaparece - no natal. Hoje o DS jaz num baú. Em um baú de desejos assassinados pela presença. Em um baú de desejos mortos pelo consumo. Hoje Natália ama o DSi. E, o "i", ela não tem. E a julgar pelos meus salários de professor da USP, o amor de Natália pelo DSi continuará vivo, altivo, desejante, na vitrine, na falta. Objeto do nosso amor: um amor de vitrine, um desejo, uma fantasia. Aquilo que nunca é nosso.
"Professor, é possível eros pelo trabalho?" Claro. Eros pelo trabalho é no desemprego. No desemprego você quer trabalhar. No desemprego você ama trabalhar. "Ahh, como eu gostaria de trabalhar." E você tudo faz em nome desse amor. Você faz fila, preenche fichas, faz curso para enganar psicólogos de RH (leva três minutos este tipo de curso). E você logo aprende a dizer "Eu gosto de trabalhar em equipe. Sou resiliente, uma espécie de meia laranja que quando esbagaçada recupera o suco durante a noite. Você poderá me usar dia após dia." E depois de tantas garantia de subserviência, você finalmente é contratado. O trabalho se torna presença e o desejo por ele, claro, desaparece.
Ninguém pode desejar o que tem "até as tampas". Hoje o que você ama são as férias, a folga, o feriado. Platão parece ter razão. Quem pode desejar enxergar? É quem não enxerga. Porque quem enxerga, enxerga; não deseja enxergar. Quem caminha, caminha; não deseja caminhar. Quem fala, fala; não deseja falar.
Se o amor é desejo, o amor é sempre por aquilo que não temos. E, se por ventura um dia tivermos, deixaremos imediatamente de amar.
Nesse momento você deve estar pensando "Esse professor entrou na porta errada." " Professor, esse é um espaço corporativo de gente que trabalha em empresa. Eu não consigo entender muito bem o que tem a ver o que o senhor diz com a nossa vida."
Ah, meu amigo, vou explicar já.
Eu diria que o espaço corporativo é um espaço completamente controlado pelo eros de Platão.
"Por que professor? Está todo mundo querendo comer todo mundo?"
- Antes fosse.
Não é este o eros que caracteriza o mundo das empresas.
Até porque qualquer veleidade costuma ser severamente punida.
Mas o ano começa; o chefe marca uma reunião e liga o power point.
O chefe é quem liga o power point.
E eu pergunto a você: o que é que ele vai projetar na tela?
Estamos em janeiro. O que é que um chefe projeta na tela?
E a resposta que todos devem estar imaginando é "metas".
E aí eu pergunto a vocês, por acaso metas é o que a empresa já conquistou?
Por acaso meta já faz parte do patrimônio da empresa?
Por acaso meta já é o lucro a comemorar?
Não. Meta é o que falta.
E o que é que se espera de um colaborador? Amor pela meta! Eros - tesão pelo lucro do patrão; loucura pelo dinheiro que ainda está na mão do concorrente. É isso que se espera.
O mundo é erotizado desde que você era criança.
Eu me lembro da 'tia Guelmar'. E a tia Guelmar era aquela professora que dava aula de tudo. E eu estudava em uma parte velha da escola. E a tia Guelmar dizia quase todos os dias "Quando vocês passarem pro ginásio vocês vão para o prédio novo."
E tudo o que nós fazíamos era para ir para o prédio novo.
Cada vitória era um passo que nos aproximava do prédio novo.
No prédio novo cada ano do ginásio era em um andar. E o colegial era no topo do prédio. A cada ano subíamos um andar. E quando chegávamos finalmente no colegial, hoje ensino médio, imediatamente o coordenador nos dizia "Agora acabou a frescura. Tudo agora é para o vestibular."
E assim, desde a escola, a gente se acostuma a perseguir cenouras. A cenoura do prédio novo, a cenoura do último andar, a cenoura do vestibular.
Você finalmente entra na faculdade. E na faculdade logo alguém diz "Estamos nos preparando para formar o futiro profissional." A cenoura agora é o estágio, treinee, o diploma e o emprego. Você finalmente se forma; é efetivado, daí finalmente carteira assinada! Você finalmente poderia levantar os braços e dizer "Eu não tenho que perseguir mais nada. Agora eu cheguei aonde esperava-se que eu chegasse. Eu tenho um emprego, eu estou no mundo economicamente ativo."
Não.
A empresa tem quinze níveis e você está no G15. Não tem nem lugar para sua bicicleta no estacionamento. E logo alguém diz "Amigo, enquanto você não passa para o G14, você não é ninguém." E lá vai você: G14, G13, G12. Depois de um certo momento isso começa a ter siglas WFO, WXO, CEO, VP.
VP - agora a vida chegou.
Imagina... VP!? Por que VP? Enquanto eu não for P... e assim para subir você teve que perseguir cenouras. As metas, você foi atrás logo no começo da sua vida na empresa agarrou a cenoura, entregou pro chefe e imaginou, nossa agora nós vamos comemorar! E para sua decepção o chefe liga o power point com novas cenouras e lá vai você atrás; agarra a cenoura, entrega para o chefe. Novas cenouras; você já se acostuma com isso. E depois de 15 anos, você encontra o chefe na cafeteria e diz "Só uma perguntinha, faz um tempinho que eu etou perseguindo as suas cenouras. Só por curiosidade, onde é que você enfia tanta cenoura?"
Meus amigos, definitivamente a vida erótica. Essa mesma em que você passa o tempo inteiro perseguindo coisas que você não tem não é vida que vale a pena.
Pelo menos, não é vida que valha a pena sozinha. Afinal de contas, essa vida parece um grande saco sem fundos. No mundo do consumo é a mesma coisa. O vizinho compra um veículo, você compra também. Aí o vizinho compra um com teto solar, você compra também. O vizinho compra um helicóptero, você compra também. O vizinho compra um aviãozinho, você compra também. Mas agora o dele é a jato. E aí você percebe que sempre haverá o que você não tem. E a sua vida será uma busca indefinida e eterna na frustração.
É exatamente por isso que Aristóteles levantou a mão e disse "Eu não sei se eu concordo com eros. O amor não pode ser só isso. O amor não pode ser só desejo. A vida desejante é infeliz."
Aristóteles proporá o seu amor. E o amor de Aristóteles não chama eros porque eros é desejo pelo o que falta. E o amor de Aristóteles não é amor pelo o que falta.
Pelo contrário, o amor de Aristóteles é pelo o que você já tem. O amor de Aristóteles é pelo o que você já conseguiu; pela vida que você já tem; pela performance que você já consegue ter; é pela esposa que já é a sua, pelo carro que você já comprou, pela vida que você já consegue ter. O amor de Aristóteles é pelo mundo que está exatamente diante de você, quando o mundo alegra.
Enquanto eros é desejo; amor pelo o que você não tem, filia é amor-alegria; amor pelo o que você já tem e te faz bem.
"Professor, se desejo é a busca pelo o que não temos e nos faz falta, o que é alegria?"
Acompanhem-me neste momento. A definição de alegria é linda. Alegria é a passagem para um estado mais potente do próprio ser. Eu vou repetir para você degustar. Alegria é a passagem para um estado mais potente do próprio ser.
"Professor, eu não sei se eu entendi."
Eu acho que você já percebeu na sua vida que tem horas que você está voando baixo, está bem, está ligado. Em compensação, tem horas que você está bem borococho. Que você está deprimido, indisposto.
Então eu espero que você tenha percebido que existe uma energia que te anima. E esta energia oscila. Tem horas que você está com a energia em alta e horas em baixa.
A esta energia cada pensador chama de um jeito. Hobbes chamava de conatus, Spinoza de potência de agir, Nietzche de vontade de potência, Bergson de elan vital, Clóvis (o palestrante) de tesão pela vida.
Tesão pela vida é isso - potência de agir. Tem horas que sobe e horas que desce.
Quando eu acordo de manhã, costumo acordar às 5 horas, a minha potência de agir é muito baixa. Mas isso é a "minha". Tem gente que já acorda cantando - detestáveis pessoas. Gente que acorda cantando, comenta dos passarinhos, divórcio iminente. Pessoas insuportáveis. Eu sento na cama e eu demoro muito tempo para conseguir levantar. Vou até o banheiro, me sirvo da ducha e aí eu já estou um pouquinho melhor. Aí eu me visto, tomo um café, saio de casa às 6:30 para evitar o trânsito. E eu adoro o lugar aonde eu moro e portanto passar pelas ruas do meu bairro me faz bem. Aí eu vou até a cidade universitária; adoro a cidade universitária, grandes espaços, grandes áreas verdes, começo a dar aula, os alunos chegam. E o que que acontece quando eu começo a dar aula?
O que acontece é que eu adoro o que eu digo. É impressionante como eu me encanto com o que eu falo. É impressionante como eu entendo quando eu explico. E você dirá "Professor arrogante." e eu direi "Alto lá, amigo. Para que a vida tenha alguma chance de valer a pena é importante que você consiga se encantar com o que você mesmo faz. Afinal de contas, o que você mesmo faz é a atividade com a qual você mais convive. Se você detesta o que você faz é normal que a sua vida seja a maior parte do tempo triste. Mas se você se encanta com você mesmo, é meio caminho andado. Afinal você será sempre a sua maior e mais fiel companhia."
Você perguntará o que aconteceu entre 5 e 10 da manhã, quando você me flagrou encima da mesa gritando e eu responderei: alegria - passagem para um estado mais potente do próprio ser.
E por que que toda vez que eu falo do próprio ser eu aponto para mim? É para você entender que eu estou falando de mim. E o que vale para mim não vale para qualquer um. Não vale para você. Eu não sou guru. O que é um guru? Guru é alguém que vem de longe. É fundamental que o guru venha de longe porque quando você convive de perto com alguém você sabe que não é um guru porra nenhuma; é mais um bosta que nem você. Depois, guru fala línguas que você acha estranho. Guru usa "microfone-madonna" e guru é cheio de empáfia e põe no power point 10 lições para se dar bem; 7 caminhos para arrebentar; 51 fórmulas de ser feliz; 380 artifícios para destruir o asversário. O guru tem sempre a verdade sobre a vida. O guru tem a chave que funciona para qualquer um seja você quem for. "Aplicou, deu certo." (risos). O grande segredo do guru é dar a palestra e cair fora rápido. Na década de 80 eles vieram e venderam a reengenharia. Quem aplicou, faliu. Depois voltaram, 7 hábitos para o homem eficaz. Não satisfeitos voltaram, 7 hábitos para o homem altamente eficaz - para executivos com mais de 1.80m. No ano seguinte, o oitávo hábito. E você não levantou a mão para dizer "Oh, se os 7 hábitos do ano passado funcionassem não precisaria do oitavo." Mas não. Sempre haverá um guru para empurra a você goela à baixo um artifício que funciona para qualquer um.
Mas a definição que eu te dei não serve para qualquer um. Não adianta você se mudar para São Paulo, ir morar em Higienópolis, estudar filosofia e virar professor da USP para se alegrar. Só funciona comigo.
"Professor, e eu?"
Sei lá, nem te conheço. Não consigo nem te enxergar.
"Sim, mas o que eu faço para me alegrar?"
Sei lá, vá viver, observe.
Conhece-te a ti mesmo.
Observe a sua vida. O maior especialista na sua vida é você.
"E o Sr. não tem nenhuma dica para ser feliz?"
Nenhuma! Por isso eu cobro pouco.
Meus amigos, vamos usar dois dos nossos neurônios. Se alguma fórmula de algum picareta qualquer vindo sabe-se lá de onde garantisse felicidade para qualquer um, nós já teríamos erradicado a tristeza do mundo. Como você já deve ter percebido, o buraco é mais embaixo. Não erradicamos tristeza nenhuma em lugar nenhum do mundo.
É sinal que viver é um pouco mais complicado do que 7 piruetas, artifícios, fórmulas, fórmula de qualidade de vida, comer linhaça, correr na praia ou seguir as dicas do Dr Dráuzio, do Zeca Camargo, da Ceribelle, de algum profeta ou qualquer outra pessoa que queira zombar da sua inteligência.
Diminuir a tua liberdade e a tua soberania para encontrar você mesmo com a tua inteligência o melhor caminho.
O amor de Aristóteles é alegria - passagem para um estado mais potente do próprio ser.
Nesse momento você me ouve e pergunta "Professor, se Platão foi um grande mestre e disse que amor é desejo pelo o que falta; se Aristóteles foi um grande mestre e disse que amor é alegria pelo o que não falta, com qual dos dois eu fico?"
E nesse momento quem fala sou eu; fique com os dois. Nada te impede de amar o que você não tem e, quando você ama o que não tem você chama de eros ou desejo. Mas nada te impede de amar também o que você já tem. E quando você ama o que você já tem, chame isso de filia ou alegria.
E, para você perceber como são os dois complementares, eu me lembro que ano passado em outubro eu dei muitas palestras. A categoria que mais gosta de me ouvir são médicos e outubro tem o dia do médico - é mês de capitalizar. Eu fiquei tanto tempo fora de casa que eu não tinha nem chave para entrar. Toquei a campainha; minha esposa abriu a porta com um sorriso e eu decidi compensá-la com um galanteio. Eu disse à ela "esse tempo que eu fiquei fora me permitiu perceber que amo você muito à moda de Platão, eroticamente. Te desejo demais quando você não está. Mas agora que você abriu a porta. Agora que a falta se fez presença, eu me dou conta de que amo muito você também à moda de Aristóteles - na presença. Teu sorriso me encanta, tua presença me enternece, teu abraço me contagia. Tudo em você é alegria no encontro.
E aí fica evidente que quando você ama alguém quando este alguém não está; desejando que estivesse. Quando você ama este alguém quando este alguém está, alegrando-se com o encontro. Não sobram outras possibilidades. Se você ama na falta e na presença é porque você ama e ponto final. Na falta desejando. Na presença, se alegrando.
Infelizmente, a alegria é muito mais rara do que o desejo. Fomos adestrado desde a escola a desejar, mas não fomos preparados para a alegria. Pelo contrário, em muitas situações de educação, toda e qualquer manifestação de alegria era punida "Isso aqui é lugar de gente séria." "O seu filho ainda não tem maturidade para estar na sétima série. É alegre demais."
Fomos adestrados a desejar e fomos o tempo inteiro desincentivados à alegria. No mundo das empresas não é diferente. E o jargão dos RHs é indiscutível "É preciso sair da zona de conforto." Sair da zona de conforto deixa claro o que é que esperamos de você - esperamos de você o desconforto desejante de quem vai atrás do que falta. Jamais a alegria confortável de quem está de boa com o que já tem. Diga na sua empresa "Estou de boa." para você ver o fim.
A punição pela a alegria justifica a expressão consagrada no mundo inteiro - happy hour. Em qualquer lugar do mundo que você for, happy hour é fora 'dali', é depois - sexta-feira às 18 horas lá no boteco. Happy hour, por incrível que pareça, quer dizer momento fora do trabalho. Como se houvesse uma impossibilidade fundamental de alegria no trabalho. Como se houvesse uma impossibilidade lógica de felicidade segunda às 8 da manhã - no reencontro, na recuperação das atividades. Depois de um fim de semana entediante, happy hour - segunda de manhã. Em lugar nenhum do mundo é assim. E o grande desafio coorporativo contemporâneo é permitir a todos que convertam desejo em alegria. Porque só a alegria dará sentido aos zeros das metas tão arduamente perseguidas.
Buscar números por buscar números é tirar do trabalho todo o seu sentido ou significado. Você vira um acumulador de zeros que não entende nada a não ser a necessidade de se esforçar para aumentar cifras. Mas na hora em que você entende que as cifras têm sentido e que o sentido das cifras está na sua alegria e na alegria de todos com quem você se relaciona dentro e fora da empresa aí sim cada zero terá o seu significado. E é muito mais fácil ter tesão para buscar zeros que querem dizer alguma coisa do que simplesmente buscar o enriquecimento impessoal, frio e até injusto de quem explora o seu trabalho.