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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

"Antes de Casar Sara"


Uma médica brasileira que trabalha nos states me perguntando sobre minha visão do DSM (Código que define critérios diagnósticos para doenças psiquiátricas e neurológicas)

O que ela diz:

O DSM-5 esta saindo e esperasse que esteja melhor que a versao anterior. O que os Brasileiros precisam entender eh que os estudos usados para informar as decisioes feitas por este seleto grupo de psiquiatras e psicologos nos EUA nao considera estudos que sejam culturalmente relevantes a outras populacoes do mundo. A maior parte dos instrumentos de diagnostico de doencas mentais na infancia ainda nao foram validados no Brasil (apesar de versoes traduzidas serem usadas diariamente por profissionais brasileiros). Infelizmente, a psicologia e psiquiatria infantis brasileiras ainda estao muito defasadas comparado com o resto do mundo. Eh antietico usar instrumentos de diagnostico americanos para diagnosticar criancas brasileiras sem ter uma validacao apropriada. Quem acaba pagando sao as criancas brasileiras que estao sendo medicadas desnecessariamente cada vez mais cedo.

Meu desabafo:

Nossa amiga, acho tantas coisas sobre isso! Haha. Concordo muito contigo que faz não nenhum sentido dissociar a cultura local da abordagem utilizada. Mas tb faz parte da nossa cultura nos sentirmos seguros com o que é importado e menosprezamos o nacional, além do aspecto mais global de que todo mudança angustia. E tem muita gente com boas visões e propostas que vejo passar por preconceitos por serem inovadores. As publicações mais freqüentes geralmente são meros levantamento de dados.

Por outro lado, tenho cada vez menos me apegado a CIDs psiquiátricos porque achar que não são uma ferramenta de grande utilidade em geral, com exceção de casos realmente psicóticos ou neurológico. Pro dia a dia me lembra muito o deboche sobre o médico dizendo ao seu paciente "ah, não, para de falar que já te diagnostiquei! Não atrapalha."(risos). Não acho que a medicina tenha ainda tanto conhecimento da neuroquímica e/ou fisiologia para determinar diretrizes ou protocolos para escolha do tratamento de forma rigorosa - o exemplo que ele cita do metilfenidato é ótimo. Acho que serve muito também para estabilizadores do humor.

Acho extraordinário que enfim se tenha encontrado, depois de tanto tempo, uma maneira de compreender melhor essa área tão pouco compreendida e ao mesmo tempo tão significativamente prevalente. Mas não consigo imaginar que a nossa ou mesmo a próxima geração vá conseguir usufruir disso. Especialmente no Brasil. A falta de conhecimento da população sobre saúde é desconcertante. E o preconceito com sintomas psicológico (e mesmo neurológicos) esmagador. Mesmo na população instruída. O livre acesso da indústria farmacêutica definindo "medicações da moda" chega a ser tragicômico. Exemplos simples, brasileiro não usa aspirina para dor; desdenha do Tylenol e é aficcionada por antiinflamatórios - desconhecendo os riscos e mesmo o motivo deste comportamento. Omeprazol e similares passaram a fazer parte inclusive da prescrição MÉDICA como "tratamento" de gastroenterites e mesmo como uso contínuo em pacientes acima de 50 anos (como se fosse Epocler (:p - lembra desse?!?).

A grande maioria da população não tem acesso ao médico - passa uma vez por mês no posto de saúde "para pegar a receita" e adora que funcione assim - dizem veementemente que estão em tratamento - sendo que conversam por 30min a cada 3 meses com seu médico. Dos que podem pagar, muitos se ofendem com o assunto - é preciso de tato em geral para pode se falar sobre ansiedade, talvez tanto quanto sobre drogas ou DSTs.

Bom, depois desse bláblablá todo, agora respondo a tua pergunta!! Sim acho perfeita a tua visão sobre o assunto; mas por outro lado penso que gastar verba para produzir ferramentas nacionais neste momento possa ser desperdício. Concordo que dói ler isto, mas enquanto a população permanecer alienada, desinteressada e mal informada, não vai ser capaz de aproveitar nenhum recurso criado...