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sábado, 30 de outubro de 2010

Você é responsável pelo o que cativa

Casar para mim foi clautrofóbico; tanto que quase desmaiei logo após a troca das alianças, ainda no altar. Senti como se meu sistema tivesse entrado em stand by por alguns minutos para que minha alma pudesse abranger a repercussão do simbolismo.
Recuperei minhas funções autonômicas com relativa facilidade, mas uma pulga atrás da orelha me instigou a ficar alerta. Me ensinou a matemática do "todos os dias de nossas vidas"...

Nossas vidas??? Socorro! Claustrofobia vertiginosa...
Eu quero a minha vida, minha liberdade, meu tempo, meu espaço!
Todos os dias??? Ah não... tá de brincadeira! Todos todos?? Sem férias, feriados ou 13º??? Oh, pulga... eles tão loucos, né?!

Comecei a investigar cada momento de convivência, cada interação sob a lente do "tem que valer muito a pena então". E cada discordância que encontrava (e encontrava obviamente) pensava RÁ! Tá aí... imagina essa incomodação para o resto da vida? Imagina... multiplica (como diria Paulinho Mixaria)!

E é claro em poucos dias cheguei à conclusão de que um divórcio era necessário.
Chorei, gritei, argumentei, expliquei, mas meu esposo sugeriu respirar um pouco e rever a urgência mais tarde.

Meio que a contra gosto aceitei... afinal uma segunda opinião (minha) seria uma boa idéia.

Duas semanas depois ele entrou no mar de jet ski e caiu entre as ondas. Minha alma acordou. Em um reflexo amigdaliano a quantidade de informações que eu processei e a rapidez com que reagi foi avassaladora.

Ele não estava tão longe no mar, estava de colete e tinham outras pessoas a quem recorrer que estavam atentos e por perto. Mas como que por empatia eu vislumbrei a cascata de desespero que ele estava sentindo, à mercê da ondas, engolindo água, paralizado pelo pânico, preocupado em resgatar o jet ski, furioso por aquilo estar acontecendo com ele, vendo-se sozinho, precisando agir e sentindo-se impotente, as tentativas frustas de voltar para a areia...

Não era esse horror todo, não seria pra outras pessoas, mas para ele era; eu sabia. Sabia porque ele tinha me cativado. Sabia porque já passamos por muita coisa juntos. Sabia porque sabia. Eu, sabia. Aquelas outras pessoas não.

Em segundos joguei no chão o casaco, o vestido e a toalha em que estava enrolada (sim fazia muito frio)e entrei no mar, nadei rápido até que ele pudesse me ver. Era só o que ele precisava, me ver, me ouvir e ele saberia que iria ficar bem. Não havia necessidade que eu tocasse ele, que o carregasse até a areia, eu sabia. E foi assim. Quando cheguei a alguns metros dele o pânico diminuiu, a paralização passou e ele mesmo se organizou.

E então minha alma esmagou a pulga. Porque meu amor por ele é amigdaliano. Porque ter uma ligação tão forte assim com uma pessoa... é viver.

E se o casamento é o claustro onde eu posso usufruir dessa ligação, então este é o meu claustro, é o meu mundo, é onde eu vivo.

Então tudo pareceu mais espaçoso. Lembrei e encontrei todos os cantos e arestas que são só meus, onde eu sou só eu. E respirando com toda facilidade, decidi fazer lentilhas na panela de pressão pela primeira vez, para esperar meu marido em casa com a janta pronta. Convidei meu pai para vir assistir; meu melhor amigo iria entender a simbologia dessa primeira janta.