sábado, 7 de julho de 2012

AI O AMOR....


Eu decorei suas fraquezas, acalmei seus pesadelos.

Conheço histórias de sua infância, dores e repulsas.

Sou sua caixa-preta, sua cópia de segurança, seu diário, seu esconderijo na parede.

Poderia imitar sua caligrafia, poderia escrever sua biografia, listar o material escolar da 5ª série, recordá-la da capa de bichinhos coloridos da cartilha Alegria de Saber.

Você não escondeu nenhuma resposta de minhas perguntas. Nenhuma gaveta para a minha curiosidade.

Nunca se revelou tanto para outra pessoa. Expôs quem odiava no Ensino Médio, quem amava, quais as gafes e as covardias que experimentou na escola.

Confidenciou aquilo que seu pai gritou e que magoou fundo, aquilo que sua mãe omitiu e feriu fundo.

Não tem anticorpos contra mim. Baixou as armas, depôs a mínima resistência.

Se você me escolheu para confiar, devo ter o dobro de tato para falar contigo, o triplo de responsabilidade. Qualquer um conta com o direito de falhar, qualquer um desfruta da possibilidade de errar, menos eu. Sou o que realmente estudou seuspontos fracos e o lugar de suas veias.

Perdi a desculpa do acidente, a vantagem do lapso.

Sou o mais perigoso, portanto tenho a obrigação de defendê-la de mim. Tudo o que ouvi a seu respeito não posso empregar para agredi-la. Cada desabafo que me confiou não serve para nada, a não ser para amá-la.

Não tem finalidade doméstica, nem serventia para fofoca, é uma amnésia alegre: escuto, sorrio e consolo.

Não ouso soprar verdades sem sua permissão. São arquivos protegidos.

Quem ama mergulha em hipnose regressiva, firmamos um código de quietude e cumplicidade, de zelo e compromisso.

Intimidade é um conteúdo perigoso, tóxico, explosivo. Há os casais que esquecem que estão levando a valiosa carga e transformam a catarse em tortura psicológica, em chantagem emocional, em sequestro moral.

Suas confidências morrem comigo ou eu vou morrer nelas. Não podem retornar numa briga. Que eu morda a língua, queime a boca, mas não use jamais seus segredos. Aquilo que você me disse não é para ser devolvido. Todo segredo é um sino sem pêndulo.

Não importa o que faça ou as razões da raiva, é covardia distorcer suas lembranças.

Não posso rifar seus problemas, nem propor leilão dos seus medos.

Minha namorada, minha noiva, minha mulher, meu amor.

Eu prometo cercar seu silêncio com meu silêncio.

Não nasci para julgá-la, mas para me julgar e, assim, merecê-la.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 12/06/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 1798

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Nietzsche

Estar consciênte não se opõe modo decisivo ao que é instintivo. O pensamento é secretamente guiado e colocado em certas trilhas pelos instintos. Por trás de toda lógica e de sua aparente soberania de movimento existem valorações, exigências filosóficas para a preservação de uma determinada espécie de vida.

Em medida que um juízo promove ou conserva a vida, ou até mesmo cultiva a espécie; nossa inclinação é afirmar que estes juízos, mesmo os mais falsos nos são os mais indispensáveis. Reconhecer a inverdade como condição de vida: isto significa enfrentar de maneira perigosa os habituais sentimentos de valor; e uma filosofia que se atreve a fezê-lo se coloca além do bem e do mal.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Mais uma da Natália Kléin

Funciona mais ou menos assim. Você tem algo a dizer, então cria um espaço para se expressar. Se o seu discurso for pertinente, em algum momento, alguém vai ler. Se tiver algum mérito no que você publicou, alguém vai voltar, trazendo mais alguém. E assim por diante.
Criar um blog não é um processo complicado. Tanto que houve uma época em que todo mundo tinha o seu - mais ou menos como na época do Tamagotchi. Eu mesma tive alguns. Blogs e Tamagotchis. Os Tamagotchis, eu matei todos. Uma coisa impressionante. Eu era a genocida dos bichinhos eletrônicos japoneses. Eu era a Nataliazilla. A coisa era tão séria que foi ali mesmo que eu percebi que não tinha talento nenhum para ser mãe.
Já os meus blogs sobreviveram por mais tempo. Tive três. O primeiro era meu xodó cor-de-rosa e se chamava "As Aventuras de Charlote". Era uma fantasia em cima da vida real, que girava em torno da volta de alguém (sim, sempre envolve alguém), a quem eu chamava de Ulisses. Ainda volto com essa história. Especialmente agora que misturar fantasia e realidade tá superin. Costumo ser a precursora anônima de projetos bem sucedidos dos outros, mas deixo isso para outro post.
Meu segundo blog já não era mais cor-de-rosa. Eram textos obscuros e nada divertidos. Nunca divulguei e, felizmente, não ficou conhecido. Nem lembro o que fiz com ele. Acho que fechei. Ou ficou para o mundo, além do meu controle.
Então veio o Adorável Psicose. Comecei do mesmo jeito que comecei os outros e do mesmo modo que todo mundo começa o seu blog. As ferramentas estão disponíveis para todos, a internet é pura democracia. O que fazer com essa voz, aí sim não é para todos.
O problema dessa liberdade cibernética é que ela funciona como um microfone ao fim da palestra. De posse desse microfone, o público não apenas se vê no direito de acrescentar algo pertinente. Ele se sente no dever de falar absolutamente qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. E não tem exemplo melhor do que o campo dos comentários. Não me levem a mal, sempre me orgulhei de dizer que os leitores desse blog costumam trazer boas contribuições. Aliás, eu conheço por nome alguns de vocês, que me visitam desde os primórdios de Adorável Psicose.
Mas com a chegada da série de TV, a coisa desandou. Alguns comentários que venho recebendo por aqui são a prova de que a liberdade de expressão jamais deveria ser dada aos que não têm nada para expressar. Porque na evidente falta de algo consistente para dizer, a opção mais fácil é atacar. O que, para mim, não faz sentido nenhum, porque ninguém é obrigado a ler esse blog. Aliás, para chegar até aqui, a pessoa precisa realizar o mínimo - porém relevante - esforço de digitar um endereço na barra do navegador. E dar enter.
E aí chegamos ao ponto crucial dessa questão. Algumas pessoas são capazes de usar as ferramentas da democracia virtual e, de fato, construir alguma coisa. Outras, no auge do desespero por um pouquinho de voz, grudam como carrapatos nas costas dos que realmente criam, chupam seu sangue e depois reclamam que estava muito ralo, muito amargo, muito doce.
A eles, eu lembro: liberdade de expressão é um privilégio, não uma desculpa para fazer do mundo sua lixeira particular. Quando sentir aquela vontade tecer um comentário, lembre-se de dar uma passadinha no banheiro antes. De repente, você já se resolve por lá.